Como o CRISPR pode mudar o que chega à sua mesa
Imagine comer uma amora-preta sem sementes grudando nos dentes ou colher uma variedade sem espinhos. Parece um detalhe pequeno, mas ajustes assim podem tornar os alimentos mais práticos para quem compra e mais fáceis de produzir. A startup americana Pairwise usa a edição genética por CRISPR para desenvolver essas características em alguns anos, em vez das décadas que o melhoramento convencional pode exigir. (source)
A proposta não é apenas criar alimentos “de design”. É tentar combinar, na mesma planta, atributos que normalmente seriam difíceis de reunir: maior produtividade, resistência a doenças ou ao clima e uma experiência melhor para o consumidor.
1. O melhoramento ganha velocidade, mas não elimina os testes
O melhoramento tradicional funciona como uma longa seleção de combinações. Os pesquisadores cruzam plantas, escolhem as melhores e repetem o processo por várias gerações. O resultado pode trazer uma característica desejada, mas também pode perder sabor, rendimento ou resistência.
O CRISPR funciona mais como um editor de texto do DNA. Ele pode desativar um gene ou alterar sua atividade em um ponto específico. Isso não significa, porém, que toda edição CRISPR seja igual ou que a técnica nunca possa ser usada para inserir sequências genéticas. Também é incorreto definir todo organismo geneticamente modificado como uma planta que recebeu DNA de outra espécie. A classificação depende do tipo de alteração e das regras de cada país.
Especialistas citados pela Pairwise afirmam que o CRISPR pode tornar o melhoramento vegetal pelo menos 95% mais rápido do que os métodos convencionais. A tecnologia também ajuda a testar várias características em conjunto. O milho, por exemplo, tem cerca de 40.000 genes, o que torna as combinações naturais extremamente numerosas.
Em um projeto com a Bayer, a Pairwise estudou o número de fileiras de grãos em uma espiga de milho. A empresa planeja combinar essa edição com outras, como caules mais curtos e maior tolerância ao calor e à seca. Isso é um plano de pesquisa, não uma comprovação de que as futuras variedades terão desempenho superior em todos os ambientes. Essa conclusão exige ensaios de campo comparativos, em diferentes solos e climas.
2. O benefício para o consumidor depende de evidências
A Pairwise lançou nos Estados Unidos, em 2023, seu primeiro produto CRISPR: uma mostarda menos amarga. A empresa informou no início de 2024 que descontinuaria esse produto para priorizar outras culturas. O mercado, portanto, ainda é pequeno e está em fase inicial. A empresa diz ter recebido 50 aprovações regulatórias para cinco culturas editadas em nove países, mas esse total não significa que cinco produtos comerciais estejam disponíveis nos supermercados.
Hoje, a criação da Pairwise disponível para venda é uma variedade de amora-preta de alto rendimento, oferecida em quantidades limitadas na Colômbia. A empresa também trabalha em projetos como pêssegos sem caroço, culturas resistentes a doenças e árvores frutíferas que possam produzir mais cedo.
Para quem compra alimentos, a promessa é concreta: frutas mais fáceis de comer, produtos que durem mais depois da colheita e variedades com menos imperfeições. No entanto, características como resistência à seca ou a pragas não garantem automaticamente menor uso de água ou de agrotóxicos. É preciso comparar, em campo, irrigação, aplicações de defensivos, produtividade, efeitos sobre organismos não alvo e desempenho em diferentes condições.
Se esses resultados se confirmarem, o ganho pode aparecer em duas frentes. O consumidor poderá encontrar alimentos mais convenientes e, ao mesmo tempo, a produção poderá usar os recursos com mais eficiência. Isso ajudaria a construir um sistema alimentar mais resiliente, embora não elimine os demais desafios da agricultura.
3. No Brasil, a regra depende do caso concreto
Para o público brasileiro, a pergunta não é apenas se uma planta foi editada, mas como a alteração será enquadrada. A Resolução Normativa nº 16 da CTNBio, de 15 de janeiro de 2018, estabelece critérios para avaliar, caso a caso, se produtos obtidos por técnicas de melhoramento de precisão, incluindo CRISPR/Cas, devem ser tratados como organismos geneticamente modificados. Produtos sem DNA recombinante persistente podem ser classificados como não OGM, desde que atendam aos critérios aplicáveis.
Já existem exemplos de decisões técnicas no país. Em 2021, a CTNBio concluiu que linhas de cana-de-açúcar editadas pela Embrapa não se enquadravam na definição regulatória de OGM. Em fevereiro de 2026, a FuturaGene e a Suzano anunciaram uma decisão regulatória para um eucalipto editado, também com base nos critérios da RN nº 16.
Isso ajuda a explicar por que a edição genética não deve ser tratada como sinônimo automático de transgenia. Ao mesmo tempo, “não OGM” em uma decisão regulatória não é uma garantia geral de segurança ou de desempenho. Cada produto ainda precisa ser analisado de acordo com sua alteração, seu uso e as evidências disponíveis.
4. O teste decisivo será chegar à escala
A Pairwise prevê que suas amoras-pretas de “tríplice ameaça”, sem sementes, sem espinhos e de alto rendimento, não estarão nos mercados dos Estados Unidos antes de 2030. Mesmo com a velocidade do CRISPR, plantas precisam crescer, ser testadas em condições reais e passar pelos processos regulatórios e comerciais necessários.
A tecnologia foi inventada apenas em 2012, e sua aceitação cultural ainda está em disputa. O receio de que a edição genética repita a reação negativa enfrentada por alguns OGMs pode influenciar investimentos, regras e decisões de compra. Por outro lado, organizações como a FAO defendem avaliação caso a caso e governança baseada em evidências.
O Brasil também participa dessa pesquisa. A Embrapa estuda edição genética em microrganismos benéficos e relata resultados de laboratório com maior resistência à radiação solar. Pesquisas brasileiras ainda investigam inoculantes melhorados e aplicações em culturas como a soja. Esses trabalhos mostram possibilidades, não produtos prontos para o consumidor.
Nos próximos anos, vale observar três coisas no rótulo e nas notícias: qual característica foi alterada, quais testes de campo sustentam a promessa e como a CTNBio classificou o produto. Assim, você poderá avaliar alimentos editados com menos medo e menos propaganda. Se os dados confirmarem mais sabor, durabilidade ou eficiência sem efeitos indesejados, o CRISPR poderá aproximar da sua mesa uma nova geração de frutas e hortaliças mais fáceis de consumir e de produzir. Leia também: Rins suínos supercongelados podem salvar vidas. Entenda como essa tecnologia pode reduzir filas de transplante.






